Conto enviado por Verônica
Meus passos trêmulos e desajeitados me conduzem até a porta de madeira branca. Entro sem bater, num ato despreocupado e íntimo, mas até hoje quieto pelo pequeno constrangimento que ainda me causa. Nossos olhos se cruzam. Meu coração não tem mais como acelerar, minha boca se estica num sorriso indiscreto e eu abaixo os olhos. Viro-me para fechar a porta, disfarçando calculadamente a minha respiração acelerada e sentindo seus olhos fixos na minha silhueta pequena. O medo arrepiando minha coluna enquanto minhas veias fervem pela dose de adrenalina liberada pelo meu cérebro. Um coelhinho entrando na toca do lobo.
O prazer do suicídio. Viro-me novamente, movendo-me com cuidado até o moço que me espera despreocupadamente largado em cima de sua cama, com as roupas levemente amassadas e o cabelo alinhado, a linha tênue quase proposital (ou totalmente) que ele rabisca de modo tranquilo e que me fascina. Nossas bocas se tocam num gesto íntimo de carinho, enquanto seus olhos me acusam como se soubessem de todos os meus crimes. E eles sabem. Escondo meus olhos enquanto conversamos, minhas mãos tremendo e brincando para disfarçar meu nervosismo, a minha falta de assunto coerente e minha inteligência inventada. Ele se deita atrás de mim, fazendo meu corpo se assustar com a proximidade, como se fosse a primeira vez, e minha garganta fechar. Nenhum protesto; o meu corpo estranha, mas sempre gosta do calor. Tento elaborar mais algumas outras frases. Silêncio. Seus dedos percorrem calmamente minhas costas, leves como plumas, quentes como fogo, descendo em direção à minha cintura, caminhando até minha barriga, enquanto eu finjo que não me importo: um teatro falho e parcialmente proposital que me faz sentir seu riso baixo e seu sorriso fraco atrás do meu pescoço enquanto ele sente meu corpo tremer embaixo do seu toque.
Segundos depois sua boca se aproxima da minha nuca enquanto sua mão, antes delicada, agora pesa no meu estômago me puxando pra perto. Seu hálito quente subindo até a minha orelha, o calor descendo e o gelo subindo no meu corpo, seus lábios macios se abrindo e seus dentes, com delicadeza de um lobo, puxando meu lóbulo. O ar escapando da minha garganta audivelmente enquanto minha máscara de boa donzela cai e é substituída pelos meus gemidos baixos e provocativos quem pedem sempre por mais, mas seus lábios ainda se demoram na minha orelha, numa tortura infernal e doce e quente. Lentamente sua boca desce em direção ao meu pescoço, os movimentos aumentando de acordo com a velocidade da minha respiração desajeitada, minha boca se rasgando num pequeno sorriso sacana enquanto a sua se move vorazmente, o maxilar rijo a cada mordida, seus dentes fortes trabalhando em meu pescoço tão maestralmente como se pintasse o melhor de seus quadros, tão agressivamente como se quisessem me arrancar um pedaço da carne, enquanto suas veias do pescoço saltam revelando parte do homem que se esconde embaixo da camisa amassada. Sua força aumentando gradativamente; meu corpo se empina e se move sutilmente roçando-se no seu, até que sinto meu corpo sendo virado com agressão, e em um segundo seu corpo está em cima do meu. Beijo. Sua boca quente e a língua pegando fogo, dançando com a minha num espetáculo reprisado, mas que sempre me surpreende e faz minha boca pedir por mais e mais ainda quando sua mão sobe pelo meu pescoço e puxa meu cabelo com a força certa pra fazer meu corpo arrepiar inteiro sem arrancar um fio sequer. Arde. Me desespero com a temperatura do meu corpo, já em chamas, enquanto pra você parece que é tudo uma brincadeira. Perco o fôlego, imploro por mais e grito e falho.
Finjo que quero, mas no fundo nós dois sabemos que eu odiaria ter o controle da nossa peça: o que eu mais gosto é essa sensação de quando eu olho nos teus olhos, sem saber o que fazer, e eles já sabem exatamente qual é o próximo ato. Meu tesão é controlado por cada movimento do seu corpo. Abro a boca e deixo escapar todo o resto da minha dignidade inventada quando olho nos teus olhos e te peço pra me fazer sua e… Toc toc. Nosso teatro acaba com a frustração por saber que a janta está na mesa.


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